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quinta-feira, 31 de março de 2011

Sobre o retrato...

Foi desde pequena se sentindo diferente dos outros que gostavam de brincar de gato mia e amarelinha na rua, queria estar em outro lugar sempre, por isso lia e voava com as linhas, sonhava em estar entre as ondas de uma cidade bem distante, voando em um avião rumo a qualquer lugar que não fosse aqui, foi olhando para o céu, empinando a pipa na praia, andando de bicicleta, pensando em como seria que decidiu o melhor sonho entre tantos bons, a menina de 7 anos queria ser dona de galeria, artista plástica, queria cantar jazz, blues em um barzinho no centro histórico, ter romances iguais aos dos livros, uma menina que pintava pássaros voando num céu distante e mãozinhas pequenas tentando alcançá-los, foi daquela época tão mágica onde uma menininha diferente instigava até os mais sábios com as palavras ditas naturalmente, para sair da boca de um adulto, mas de uma criança que desde cedo já perguntava sobre o motivo de algumas pessoas passarem por tanto sofrimento e as outras viverem tão felizes, questionava o porquê da violência e da hipocrisia dos adultos, foi nessa mesma época da Ariel, dos dinossauros e dos pássaros que ela decidiu que voar era o que tinha de mais incrível na vida, olha pro céu como fica longe! Deve ser tão legal poder voar bem pertinho dele... será que dá para sentir os anjos se chegarmos perto nas nuvens?

E não se contentava com os pássaros em gaiolas, com as crianças dormindo na rua, tanto foi o desgosto com o mundo dos adultos que resolveu deixar de tentar entender, cresceu e murchou dentro dela aquelas asas brilhantes e o sonho de estar perto dos anjos lá, bem alto, no céu. E a mesma dor que foi quando nasceram as asas, foi quando elas murcharam, já não tinham desenhos coloridos contrastando com o a monocromia dos azuis do céu... entrava o cinza, o preto, acabaram-se os cadarços coloridos nos tênis, tudo que um dia havia sido alegre e vistoso deu lugar ao opaco e sem vida... já não tinha como lidar com a vida como se não estivesse nela. A menina cresceu.

O tempo passou e a cada decepção ela entendia melhor o retrato do tal de Dorian, ela via nela aquela tristeza estampada e pensava que algum dia olharia para o próprio quadro e choraria ajoelhada lembrando dos tempos de ouro da vida, sentia-se trocada pelo o quadro, em vez da beleza e da vivacidade, residiam nela a melancolia e a maldade incondizentes com sua realidade, "onde estaria o quadro para libertar a sua própria beleza e alegria?"

Mas tantos foram os fatos, tantos foram os acasos que a menina desistiu de encontrar-se novamente... não havia mais azul, chegou a época do vermelho vivo, das paixões destrutivas e junto com esta época mais sofrimento acometido pelo amadurecimento inevitável. Surgiram cicatrizes, marcas para toda vida.

Quando um dia esquecida da vida, estragada pelas desilusões ela olhou para cima e viu um céu tão azul, tão bonito que a memória do quadro voltou e junto com ela o desejo incontrolável de encontrá-lo, foi longa a busca e difícil a jornada, mas quando tudo parecia perdido, mais uma vez ela voou, olhou de perto cada nuvem, quase que sentiu os anjos ao seu lado e acabou se encontrando sem querer... ela sorriu olhando pela janela e pensou: É voando que se toca o céu, que se sente os anjos e que se lembra da alegria.

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